Aromas detonam lembranças, imagens e emoções. Ao estimular a capacidade de sentir cheiros, você aumenta sua saúde. E também seu prazer.
por Liane Alves
Quando chegavam as dez horas da noite, tio Alfredo convocava as crianças do edifício Camargo para uma curiosa excursão: sentir o cheiro da maresia. Segundo seus preciosos conhecimentos olfativos, aquela era a hora ideal para sentir a maresia pegando. Isto é, o momento em que ela se tornava intensa, penetrante e pronta para ser saboreada por todos nós. E lá ia ele pela rua Barão de Ipanema afora, seguido por um séquito de meninos e meninas comandados pelo seu apuradíssimo nariz. Sentadinhos em um dos bancos da praia de Copacabana, todos se uniam num respeitoso silêncio à espera da misteriosa pegação. E então, delícia das delícias, aquele cheiro inconfundível tomava conta do nosso olfato. E ficávamos assim, narizes para cima, farejando o ar salgado trazido pelo mar, tentando captar as nuances trazidas pelo vento. Um registro que, tenho certeza, se tornou indelével na memória de todas aquelas crianças.
Com esse singelo passeio de férias, meu tio me ensinou que a vida tem cheiro. Que a natureza, as pessoas, as casas, as roupas, têm uma identidade olfativa única. A grande vantagem dessa lição de infância é que ela pode ser sempre renovada, não só por mim, mas por qualquer pessoa que experimente prestar mais atenção nos aromas e perfumes que tudo permeiam. E existe um argumento imbatível para você se abrir para os aromas: a capacidade de perceber a multiplicidade dos cheiros está relacionada com a possibilidade de viver mais intensamente, seja para estimular o prazer do instante (o momento presente), o despertar da memória emocional (o passado) ou abrir um maior leque com relação às escolhas da vida (o futuro).
Quer saber como? É só acompanhar as histórias dos personagens nas próximas páginas.
Quando pequeno, Eurico Mazzini esperava o momento em que as delicadas flores da uva cobrissem as colinas de Vinhedo, região de tradição vinícola perto de São Paulo. Sentia com prazer seu perfume adocicado, muitas vezes temperado pelo cheiro de terra molhada e de chuva. Percebia como esse aroma alcançava notas penetrantes logo de manhã e como sua intensidade variava ao longo do dia. Claro, essa percepção apurada ele só é capaz de identificar hoje, como perfumista que é da Casa de Fragrâncias Firmenich, multinacional que desenvolve alguns dos melhores perfumes do mundo. Na época, o menino não tinha noção de sua própria capacidade olfativa. Isto é, se Eurico não tivesse se especializado nessa área, talvez não percebesse a amplitude dos registros olfativos já presentes em sua memória. Seria como a maioria de nós, que não temos idéia da quantidade de cheiros arquivados em nosso cérebro ele pode registrar mais de dez mil classificações olfativas diferentes. Diz-se que um bom perfumista pode elaborar perfumes baseado apenas nas lembranças de aromas que sentiu no passado e que estão guardadas na memória, diz Eurico.
Mas que perfume impressionaria um homem assim, capaz de fazê-lo voltar a cabeça para ver a mulher que o estivesse usando? Opium, afirma Eurico. Por ser marcante, ter personalidade? A resposta surpreende. Também. Mas é mais porque tinha uma namorada, por quem eu era muito apaixonado, que o usava. Pois é. Nada melhor do que uma boa associação.
O cheiro da memória
Essa curiosa característica, que relaciona os aromas a imagens e emoções do passado, tem sua razão de ser: a classificação dos cheiros é feita no sistema límbico, responsável também pelo deflagrar das emoções e pelos registros da memória. É por isso que um aroma sempre provoca uma associação relacionada ao passado e a uma reação emocional.
Um dos maiores escritores do século 19, o francês Marcel Proust descreveu com maestria o que ocorre no cérebro a partir de um cheiro ou de um sabor. Proust percebeu que o gosto de baunilha de uma única madeleine (bolinho fofo servido com chá, também conhecido como madalena) era capaz de detonar uma profusão de imagens e sentimentos vindos do passado. Escreveu ele ao experimentar sua madeleine: De onde vinha esse prazer poderoso? Todas as flores de nosso jardim e as do parque de Swann, e as ninfas do rio Vivonne, e a gente simples da aldeia com suas casinhas, e toda a cidade de Combray e seus arredores tudo aquilo que toma corpo e se torna sólido saiu, cidades e jardins, de minha xícara de chá. Proust percebeu claramente que o sabor da madeleine estava associado a seu passado. Hoje a ciência sabe que o gosto é formado muito mais pelos aromas (mais de 70%) do que pelo paladar. Portanto, foi basicamente o aroma de baunilha que detonou as imagens de infância que desfilaram diante de Proust. Ele nos demonstrou como as imagens e sentimentos que os cheiros despertam podem enriquecer o prazer da vida.
Identidade olfativa
Essa qualidade de associação a uma imagem ou a um sentimento que uma fragrância é capaz de provocar já está sendo usada para influenciar nossas escolhas de consumo. Lojas e spas estão criando suas próprias identidades olfativas. A monja budista coreana Soon Hee, por exemplo, criou um perfume especial para ser usado nas instalações das unidades do spa criado por ela, o Shishindo. Assim, toda vez que uma cliente senti-lo, imediatamente vai associá-lo ao prazer de uma massagem ou ao relaxamento provocado por um banho perfumado que experimentou no spa. Lojas sofisticadas também costumam ter seu perfume ambiental característico. Especula-se que em dez anos o computador poderá liberar cheiros a partir de um software.
Se o mundo do século 20 foi da imagem, o do século 21 parece estar associado aos aromas. Já se fala de utilizar o cheiro de cada pessoa como forma de identificação, pois ele é tão pessoal e único quanto uma marca digital. No futuro, a carteira de identidade pode dispensar a marca do dedão e identificar uma pessoa peor seu cheiro, sua mais indiscutível marca pessoal.
Um bem para a saúde
David Crow é outro habitante inesperado do mundo dos aromas. Sua paixão pelos óleos essenciais determinou seu futuro e sua escolha de vida. Nascido nos Estados Unidos e criado na Grécia, David aprendeu o emprego terapêutico dos óleos no Nepal, onde morou por nove anos estudando medicina indiana e tibetana (na época, ele já era um especialista em medicina chinesa). Seu principal interesse é a saúde comunitária e a recuperação do sistema imunológico com base no uso dos aromas. Com David, é possível aprender que os óleos essenciais são a própria expressão do sistema imunológico das plantas. Os óleos geralmente exalam bons perfumes. Essa é maneira como as plantas se defendem de vírus, micróbios e bactérias patogênicas que proliferam em ambientes pútridos e malcheirosos, diz ele. Isso quer dizer que a maioria dos óleos essenciais (naturais) são antibacterianos, antimicrobianos e antivirais. E que beneficiam o sistema imunológico do ser humano, pois combatem os microorganismos prejudicais à nossa saúde.
David Crow, que deve vir ao Brasil em maio, tem um projeto ambicioso chamado imunidade comunitária. Baseado nos princípios da medicina social preventiva e implantado em algumas regiões dos Estados Unidos, o projeto propõe a utilização de difusores de óleos essenciais em ambientes amplos, como escolas e hospitais. Além de manter o ambiente limpo de germes, determinados óleos, como os de alecrim e de lavanda, promovem a concentração das crianças. E a dispersão da atenção infantil é hoje um dos maiores problemas educacionais americanos, diz ele.
O uso terapêutico dos óleos essenciais é hoje aplicado também em áreas como a psicologia. Os aromas naturais dos óleos estão associados às emoções. Podemos utilizá-los para ajudar a promover a cura durante a terapia, diz Júlia Nunes, terapeuta carioca com especialização em psicologia psicossomática. Existe até uma corrente de psicologia nos Estados Unidos, a aromacologia (nascida em 1989 no Institute of Smell, que faz pesquisas científicas com o olfato), que propõe a união formal da psicologia com o uso de aromas.
Mais prazer, mais amor
Se Proust nos revela que os aromas nos fazem lembrar do passado, se lojas e spas nos mostram que eles influenciam nossas escolhas futuras, o amor e o sexo dizem que as fragrâncias são indispensáveis no momento presente. A perfumista Mandy Aftel é uma das especialistas nesse assunto. No seu livro, Essências e Alquimia, ela descreve longamente como os odores animais e a suposta capacidade afrodisíaca de certas plantas provocam nossa libido. Porque um perfume não é nada mais do que um poderoso atrativo sexual. As mulheres não querem cheirar como flores; elas querem que seus perfumes irradiem uma aura sexualmente sedutora, escreveu ela com todas as letras. E as experiências nessa área talvez sejam as mais complexas já feitas nos campo dos aromas. Já se sabe, por exemplo, que são as notas animálicas de um perfume que podem despertar o desejo sexual. São justamente as substâncias mais caras e as quem têm o cheiro mais surpreendente quando inaladas sozinhas: de curral, urina, suor. Essas substâncias, extraídas de animais ou também de certas flores ou raízes, são adicionadas a um perfume com muita parcimônia, mas são absolutamente essenciais. A verdadeira mensagem de um perfume não está nas manchetes, mas sim nas letras bem pequenininhas, diz, com bom humor, o zoólogo Michel Stoddart, pioneiro da biologia olfativa. O aprendizado com os aromas pode se iniciar com essa simples sabedoria: o momento presente pode se tornar muito mais vivo, até mais apimentado, com a ajuda dos aromas. Que tal então tentar identificar com mais precisão os perfumes e cheiros que chegam nesse exato momento até o seu nariz?
Para saber mais
Livros:
A Aromacologia, uma Ciência de Muitos Cheiros, Sonia Corazza, Senac Aromaterapia e Emoções, Shirley Price, Bertrand